O agronegócio brasileiro tem intensificado a busca por novas formas de financiamento, reduzindo a dependência do crédito rural tradicional e das linhas bancárias convencionais. A estratégia mais recente envolve a captação de recursos por meio de instrumentos do mercado de capitais, como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro).
De acordo com Lucas Moreira Gonçalves, sócio da área de Mercado de Capitais do Martinelli Advogados o movimento reflete uma mudança estrutural na forma como o setor financia suas atividades. A adoção desses mecanismos pode ampliar o acesso ao capital, especialmente para empresas que buscam recursos para expansão ou capital de giro.
Segundo ele, o agronegócio passa por uma evolução não apenas produtiva, mas também financeira. “O setor sempre foi altamente eficiente na produção. Agora, há um avanço na forma de organizar o financiamento, com estruturas que transformam recebíveis em plataformas de capital”, afirma.
Na prática, o modelo permite que produtores, cooperativas, tradings e agroindústrias antecipem valores a receber por meio de fundos estruturados que concentram recursos de investidores institucionais. Esses veículos funcionam como plataformas de crédito dentro das próprias cadeias produtivas, oferecendo liquidez e diversificando as fontes de financiamento.
O avanço dessas estruturas ocorre em um momento em que o custo do capital voltou a ser central nas decisões empresariais. Após um período de elevada liquidez global, empresas passaram a priorizar não apenas a captação de recursos, mas também a forma como estruturam seu financiamento.
Para especialistas, a mudança vai além da diversificação das fontes de recursos. A criação de fundos próprios dentro das cadeias produtivas traz maior governança, previsibilidade de fluxo de caixa e aproximação com investidores institucionais, alterando a dinâmica de circulação de capital no setor.
O novo ambiente regulatório também contribui para esse avanço. A entrada em vigor da Resolução CVM nº 175 e atualizações recentes incluindo a regulamentação do Fiagro pela Resolução CVM nº 214/2024 ampliaram a flexibilidade das estruturas de investimento e estimularam o desenvolvimento de veículos voltados ao agronegócio.
Além disso, estados têm adotado medidas para integrar políticas fiscais a essas novas estruturas. Em Goiás, o Decreto nº 10.756/2025 autorizou o uso de créditos acumulados de ICMS na aquisição de cotas de fundos como FIDCs, Fiagro e Fundos de Investimento em Participações (FIPs), desde que os recursos sejam aplicados em projetos produtivos locais.
No Paraná, o Decreto nº 9.951/2025 regulamentou mecanismo semelhante, permitindo que créditos acumulados do imposto sejam utilizados como contrapartida em investimentos em fundos voltados ao financiamento da cadeia agroindustrial.
Historicamente, empresas exportadoras acumulam créditos de ICMS que permanecem por anos com baixa liquidez. A possibilidade de integrá-los a estruturas de financiamento produtivo cria uma nova conexão entre política fiscal e mercado de capitais, segundo especialistas.
A avaliação no setor é de que esse modelo tende a ampliar o acesso ao crédito e aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro. Para analistas, o próximo salto de desenvolvimento pode estar menos ligado à tecnologia no campo e mais à sofisticação financeira das cadeias produtivas.
Fonte: Feed & Food | Publicado em 24/4/2026 | Clique aqui e veja a publicação original.